Partiu hoje o grande Poeta , natural de Faro, António Ramos Rosa.
Estamos todos mais pobres.
Foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa .
E um dos impulsionadores do movimento Poesia 61 , tendo ganho o prémio Pessoa 1988.
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O maestro que viajou pela música já nos deixou há um ano.
Felizmente na sua última viagem deixou-nos uma singularidade de música étnica, como é este "Cantos da Babilónia".
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Para recordar sempre.
Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.
Manuel da Fonseca, in "Poemas Dispersos"
Recordando mais uma vez o escritor Manuel da Fonseca no aniversário do seu nascimento .
Quero ficar
no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava
Quero
brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina, salta e te ilumina quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço
Quero pesar
feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas mas no fundo gostas quando a noite vem
Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marca a frio, a ferro e fogo
Em carne viva
Corações de
mãe, arpões, sereias e serpentes
Que te rabisca o corpo todo
Mas não sentes
Alberto Caeiro, O GUARDADOR DE REBANHOS, Poema III, in Obras de Fernando Pessoa, vol. I, Lello & Irmão - Editores, Porto
Recordando, Cesário Verde, poeta, foi um dos vultos fundamentais da nossa história literária, levando a cabo uma renovação da estilistica poética no sec. XIX.
Ultimamente tão esquecido, que nunca é demais recordar, ler , reler e analisar a sua poesia.
Faz hoje precisamente um ano que foi iniciado este trabalho de apontamentos de olhar em redor.
Gostaria de agradecer a todos que nos visitaram com o meu muito obrigado pela vossa atenção.
Prometo continuar a publicar olhares e perspetivas diferentes nunca esquecendo o assombroso encanto da Natureza, essa é e será a nossa missão.
E amanhã continua!
Nos dias de hoje é bom que se proteja
Ofereça a face a quem quer que seja
Nos dias de hoje, esteja tranquilo
Haja o que houver pense nos seus filhos
Não ande nos bares, esqueça os amigos
Não pare nas praças, não corra perigo
Não fale do medo que temos da vida
Não ponha o dedo na nossa ferida
Nos dias de hoje, não nos dê motivo
Porque na verdade eu te quero vivo
Tenha paciência, Deus está contigo
Deus está connosco até o pescoço
Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
Está tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo de búzios e nas profecias
Cai o rei de espadas
Cai o rei de ouros
Cai o rei de paus
Cai, não fica nada!
Victor Martins/ Ivan Lins
Como o tempo passa, já se foi há 30 anos.
Continua a ser um privilégio ver e ouvir toda a emoção da interpretação e a qualidade do seu reportório, tão atual.
Olhando a notícia que ninguèm gosta de dar, morreu o maestro Pedro Osório.
Sabíamos da sua doença, mas também sabíamos da sua persistência e vontade de viver.
Ficámos todos mais pobres.Cantemos até ser dia.
Paz à sua alma.
Trechos do último artigo de Maria José Nogueira Pinto, escrito poucas horas antes da sua morte e hoje publicado no DN. Um impressionante testemunho. De força, de fé, de carácter, de vida.
Delito de opinião
Foi hoje a enterrar em Óbidos. Concorde-se ou não com as ideias que defendia, o certo é que as defendia com firmeza e com a convicção de que eram as melhores para Portugal. Paz à sua alma.
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração.