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quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia






                      PRAIA

Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é longa e lisa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.

                Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido

terça-feira, 12 de julho de 2011

Poesia


PORQUE

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen,Mar Novo


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen




CANTATA DA PAZ

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.


Voz : Francisco Fanhais


Paz e Liberdade 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ruas com nome de poetas


O SUL DOS MEUS SONHOS

Os meus sonhos situam-se
sempre
a Sul
Faro
Cacela
ou Alcoutim
cenários da minha infância
orfã
de filha única
A esses sítios regresso
em sonho
ritualmente
talvez para me encontrar
com quem era
e pressentir
quem sou
Teresa Rita Lopes, O Sul dos Meus Sonhos

 
COMO AQUELAS taças pesavam
Quando vazias até nós vieram...
Depois ficaram quase esvoaçantes
Mal o vinho dentro lhes puseram:
Como corpos que mais leves se volveram
Ao habitá-los almas crentes.
Abu Al-'Abdari (séc. XI)


 


Chamam-te, escuta a sua voz.
A vida sorri-te, bebe desse vinho e saboreia-o,
é promessa de uma nova Primavera que chega.
É flor que atrai
com sua fragrância de almíscar,
bela e sensual.
Do seu caule de esmeralda libertam-se
folhas de prata e pétalas de ouro
que se entrelaçam como filamentos de seda
e se erguem como um cálice para te brindar
num inesgotável inebriamento
Ibn Darraj al-Qastalli, poeta de Cacela Velha




ATLÂNTICO

Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética